
Noite engraçada, a das eleições legislativas. Sobretudo, noite de confirmações de expectativas.
Enquanto que os socialistas aguardavam uma vitória segura, mas a todos os níveis irritantemente inglória, os sociais democratas aguardavam uma morte vegetativa do cavaquismo.
De entre os pequenos o CDS e o Bloco de Esquerda configuraram a já esperada transferência de votos das duas potências nacionais. Se de um lado o Partido Socialista conseguia sobreviver através da "desculpa" da crise internacional embora perdendo um grande contingente do seu eleitorado, o Partido Social Democrata viu a sua prestação roçar a sua pior prestação de sempre, imputada para todo o sempre ao mal afamado Santana Lopes.
Vamos por partes.
Do lado do PSD a esperança de um resultado eleitoral á direita que contemplasse (em coligação) constituir governo, esbarrou na intransigência de Manuela Ferreira Leite em se constituir como alternativa a Sócrates.
Dito assim, parece de certa forma ríspida esta imputação de culpa à, ainda, líder do partido. No entanto, se analisarmos bem foi através da cabal semelhança com o líder socialista que a líder nunca se constituiu como alternativa...
Os primeiros tiros no pé começaram internamente, quando MFL afrontou directamente as distritais com alguns nomes para as autárquicas, caso do Algarve é gritante com o líder local a afirmar que se não se respeita quem conhece a região, o ónus dos resultados também não podem passar pela estrutura local. Neste primeiro momento, pensaram os mais incautos que se tratava apenas de uma afirmação de MFL para a liderança, no sentido de acalmar a oposição interna (historicamente um dos piores inimigos dos líderes do partido). Contudo, a confirmação de um despotismo a roçar a "suspensão da democracia" chegou com as listas á Assembleia da República.
Consciente que os eleitores que votam nas legislativas, não o fazem pelos nomes que surgem dos seus círculos à AR, mas pela afinidade ao partido, programa e/ou cara da candidatura, Manuela Ferreira Leite redesenhou a estratégia de formação das listas ostracizando que não a apoiou, numa espécie de cruzada política. Com esta estratégia, o PSD conseguiu alienar importantes distritais e concelhos que teriam sido importantes para a campanha...
A esta decisão de afastar a sua oposição, que resultou em campanhas fracas em zonas importantes, não estará de todo alheia a estratégia política de sobriedade que tentava passar. Pouco virada para os holofotes, sem alegria nem força, Manuel Ferreira Leite tentava seduzir o medo dos portugueses ao perfilar-se como uma tecnocrata cinzenta, very british, não cederia a tentações eleitorais de promessas despesistas mas que seria uma aposta segura para o país sair da crise de forma consistente devolvendo a segurança no emprego e reforçando um tecido empresarial nacional abalado pela crise.
O contraponto desta estratégia era o one-man-show - José Sócrates, habilidoso a manipular a sua estrutura partidária e com o seu plano e protagonistas bem oleados. Acções de marketing político ao longo da legislatura não esconderam o desânimo e os problemas do país, no entanto, mostraram sempre aos portugueses um Líder. Alguém que não tem dúvidas, que defende as suas tropas mesmo quando o eleitorado pede o seu escalpe, seguro e sorridente em acções de campanha ridículas (como o caso dos Magalhães e das inaugurações sucessivas), que toma medidas a roçar o impopular mostravam aos portugueses que aquele comandante levaria o barco até ao seu destino, nem que esse destino fosse o fundo...
Sócrates tremeu, tremeu mas nunca o mostrou e continuou na sua campanha mesmo quando os escândalos da sua democracia musculada - a perseguição policial aos sindicatos, o caso da DREN, a manipulação dos media (que culminou com o afastamento de Manuela Moura Guedes) - ou mesmo os escândalos de corrupção - licenciaturas, Freeport, entre outros.
O caminho estava traçado, e assim continuaria... Dentro da estrutura partidária, Sócrates era um Rei que reinava sobre leais (e outros ambiciosos) súbditos. Alegre afigurava-se como mais demolidor que Manuela Ferreira Leite para as suas aspirações e assim começou uma "coligação" interna que estancou a fugida de figuras do partido para a esquerda (cada vez menos) radical. A inclusão de figuras da cultura como Inês de Medeiros e algumas com afinidade à esfera do Bloco de Esquerda foi o culminar de uma jogada de mestre que se tinha iniciado com o não afastamento de Manuel Alegre quando este perigosamente pairava sobre o seu trono.
A participação de Alegre no Comício de Coimbra deve ter sido mesmo o fechar de um acordo de cavalheiros para uma futuro institucional conjunto - São Bento e Belém.
Resumindo a história recente dos dois maiores partidos nacionais. O cinzento despotismo interno agressivo de Manuela Ferreira Leite perdeu para o autoritarismo vigoroso de Sócrates.
O CDS e o BE figuraram os grandes beneficiários da luta acima descrita.
Enquanto que a transferência de eleitores do PS para o BE se configura de um carácter mais ou menos permanente, devido ao carácter revolucionário, jovem, culturalmente espesso e de Slogans fáceis (deriva do gaélico: sluagh = exército + ghairm = grito fácil) que configura a política do Bloco contraposta com o autoritarismo Socrático que aliado ao descontentamento popular torna mais fácil o surgimento de uma vontade de revolta.
Os centristas beneficiaram de um Paulo Portas cada vez mais "candidato real", que se centra nas questões dolorosas das franjas populacionais - já não é só o Paulinho das feiras, mas também dos taxistas, dos polícias, dos reformados, etc... - mas também dos votos dos sociais democratas que desencantados e ou hostilizados pela sua líder decidiram oferecer o seu voto ao "utilitarismo". Ao se afigurar que o PSD só constituiria governo, na sua melhor hipótese em coligação com o PP, o voto de um laranja descontente no CDS acabaria por ter a mesma leitura política embora com o ónus de castigar a liderança do partido sem hipotecar as hipóteses de chegar ao poder.
Desta forma, creio que - embora muito justificada - a subida do CDS nestas eleições será efémera a não ser que Portas consiga durante esta legislatura sobrepor-se a um novo PSD que certamente surgirá após as autárquicas.
A beneficiar de uma morte lenta, mas há muito anunciada está a CDU. Sem força, sem inovação, com programa de governo estagnado há uma década e gritantemente desactualizado a CDU vive hoje do taxismo autárquico e sindical. A questão não se põe sequer com Jerónimo de Sousa, escolhido a dedo para perpétuar o discurso de Carvalhas, mas com a ideologia do passado, que sublinha a palavra perpétua e da qual apenas se salva a JCP que são hoje rebeldes sem causa, cada vez mais seduzidos pela Revolução Esquerdita aclamada por Louça.
O Governo minoritário do PS certamente resistirá, refém do caderno de encargos do CDS, do mediatismo que Louçã conseguir tirar das propostas (conjuntas com o PS???) e da anomia da CDU. O PPD-PSD terá no próximo ano de se reestruturar e nos dois seguintes de definir o que quer para si, e sobretudo para o país. Suspeito que se o ministro dos assuntos parlamentares socialista tiver algum tacto e espinha dorsal maleável, o Governo susistirá sem grande brilho mas firme... pelo menos até ao último ano de mandato onde, se a reestruturação do PSD tiver sido bem sucedida, cairá ás mãos da Direita (PSD e CDS) a urgir de protagonismo e sem poder contar com o apoio da esquerda - sempre e para sempre dividida...
Boas entradas...